Parte - I
Ele veio para São Paulo. O objetivo era estudar. Pagaria os estudos com o
trabalho no colégio interno. No dia 11 de dezembro de 1979 ele chegou à
portaria da instituição e foi bem recebido. Tinha 17 anos e enorme
expectativa quanto ao futuro: como aluno, como operário e quem sabe até
como pastor. Daquele dia em diante ele se empenhou muito para merecer a
oportunidade restrita a poucos.
No trabalho dedicou-se tanto que foi considerado como um dos raros que
davam lucro à fábrica. Trabalhou no setor de torrefação de cevada e por
conta disso carrega até hoje um pigarro. Trabalhava com disposição
dobrada nos finais de semana. Começava a militar do por de sol do sábado
até a tardezinha do domingo. Sentia sono, mas também se sentia
satisfeito por fazer o melhor. Era tudo muito cansativo, mas realizante.
A noite inteira na torrefação de cevada e no domingo, depois do almoço,
trabalhava na padaria até o final das atividades. Essa foi a forma
encontrada para acumular algumas horas extras. As receberia em dinheiro
ou as usaria para visitar os familiares...
Nos estudo ia muito bem. Chegou para cursar o segundo ano de
contabilidade e a despeito da enorme luta destacou-se. No terceiro
bimestre existiam apenas três alunos no segundo grau com cem por cento
de notas azuis. Ele era um. No final daquele ano ele foi o único a
concluir o curso com notas altas e nenhuma vermelha. Ganhou um apelido
na escola: “o garoto das notas azuis”.
Foi promovido para o setor administrativo. Não foi conduzido por métodos
políticos. Fez parte de um grupo de alunos indicados pela professora de
contabilidade. No teste foi aprovado e o único a seguir para aquele
setor. Destacou-se ocupando cargos antes exercidos apenas por
funcionários. No vestibular para a faculdade de teologia passou com
facilidade e ingressou no curso. Até o segundo ano trabalhou na escola e
pagou os estudos com o trabalho: todos os dias, à tarde, e no domingo
era o dia inteiro. Bom conceito no trabalho, excelentes notas na
faculdade. Era freqüentador assíduo da biblioteca, à noite e da sala de
oração, antes de dormir.
A partir do terceiro ano viajou (nas férias) para vender livros e até
que se deu bem. Na cidade mineira de Itabira conseguiu valor suficiente
para pagar o semestre à vista e ainda guardar um pouco. No meio do ano
foi mais longe: Altamira no Pará. Deu-se muito bem e principalmente
quando palestrou e vendeu livros no Batalhão de Infantaria da Selva
daquela região. Pagou a escola à vista e guardou valores para o último
ano. Nem precisaria vender livros no ano seguinte. Mesmo assim retornou a
Itabira, Minas Gerais e vendeu produtos alimentícios na cidade.
Ministrou palestras para os funcionários da Companhia Vale do Rio Doce.
Pagar a escola virou moleza... Foi possível até comprar uma casinha
simples para seus pais.
Formou-se e recebeu quatro convites para trabalhar, sendo três para
pastorear igrejas e um na área administrativa. Convites da Bahia, de
Minas Gerais e de São Paulo. Preferiu aceitar o convite da área
administrativa na própria instituição na qual estudara e trabalhara.
Percorreu todos os caminhos como aluno e agora como funcionário até
alcançar o cargo de contador. O mais novo a chegar ao posto até então.
Com o aditivo de que era solteiro, algo praticamente impossível de se
imaginar naqueles idos. Alcançou o cargo máximo que lhe era possível
galgar com 26 anos de idade e com apenas quatro anos de casamento. A
partir dali não existiria mais função a ser alcançada. Recebeu convite
para assumir a diretoria de uma unidade fabril. A instituição não o
liberou...
Até hoje guarda algumas lembranças (certificados e afins): a de melhor
contador naquela região imensa que incluía vários estados do Brasil e a
avaliação de que era uma das cinco maiores promessas para cargos
elevados naquela organização mundial. Era considerado um modelo de
administrador para o futuro. Capacidade profissional e total zelo às
questões da fé. Ocupava cargo de liderança na igreja local...
Tudo corria bem até que chegou ao lugar um indivíduo. Hoje, sem dúvida,
considerado (por quem observa com cuidado) como sendo enviado especial
de um ser sobrenatural. O ano foi o de 1989 e o complicador ocorreu no
segundo semestre.
O dia “D” ele não guardou na memória, mas lembra-se que sete pessoas
entraram em sua sala e lhe mostraram papéis e relatórios que denotavam
fraude. Valores (bolsas) de uma instituição de saúde que eram destinados
a alunos carentes estavam sendo desviados. Os alunos assinavam
documentos imaginando que recebiam determinados montantes como bolsa
escolar, mas seus nomes e assinaturas eram usados para desviar valores
maiores. A diferença ia para o bolso do famigerado indivíduo que chegou à
instituição em 1989...
As sete pessoas pediram para que agisse e de preferência como pastor,
conversando firmemente com aquele que conspirava contra os bons
costumes. O desvirtuado deveria devolver os valores afanados, procurar o
pastor, historiando os fatos e, por fim, ser remanejado imediatamente
para longe dos recursos financeiros. Demissão? Seria por conta da mesa
diretiva...
Ele agiu como pastor. E aí residiu o erro. Não se combate a bandidagem
com o pastorado. Mas como alguém tão novo e ingênuo poderia agir
diferente?
Ele não desistiu. Procurou todos os que podiam tomar providências e como
nada aconteceu, como deveria, ele tomou a última medida pastoral.
Levantou-se na congregação, num sábado, e expôs o problema para a membresia.
O que aconteceu depois? O início de uma história de dor, decepção, corrupção, maldade e ausência absoluta de religião...
Essa história tem como título: “momentos de cão sarnento”.
Quem seria o cão sarnento? Aquele mesmo que ao longo de dez anos superou
metas e trabalhou com esmero. Que exercitou fé e a razão.
Os momentos de cão sarnento tiveram início no segundo semestre de 1989.
Presentes do lado de cá: um pastor desolado, com 27 anos e uma esposa
com três meses de gravidez.
Os momentos de cão sarnento tiveram do lado de lá: um diretor geral
omisso, um diretor administrativo conivente, um financeiro que se
apropriava de bens alheios e muitos, mas muitos indiferentes. Existem
outros personagens que apareceram ao longo dos momentos de cão sarnento:
um jurista, um professor, um dublê de político e outros corporativistas
de plantão...
Como estão, hoje, os envolvidos nesse episódio? O que de bom trouxeram
para a comunidade? Causaram constrangimento no meio? Viveram e vivem
dentro dos padrões estabelecidos pelo contexto moral-religioso? Como
vivem com as suas famílias? Trouxeram opróbrio à comunidade?
Envolveram-se com casos policiais? Em adultério contumaz? Famílias
duplas?
Em doses homeopáticas esse blogueiro apresentará com certa nostalgia os
“momentos de cão sarnento”, de 1989 até os dias atuais...
Continua...
Parte - II
Cães sarnentos e cachorros
de rua! Em geral são uns vira-latas sem donos e sem casas. Os cães de
rua são desprezados e muitas vezes espancados, maltratados, usados como
aperitivo para cachorros de briga. O cão sarnento está num estágio pior.
Nem para a maldade tem serventia. Haveria de estragar a boca e dentes
dos briguentos profissionais! Quem se aproximaria de um animal
pestilento? Não é apenas um ser de rua, sem valor e sem bandeira.
Trata-se de uma criatura desprezível e nojenta, que causa repulsa e
gastura. Amargar o desprezo é cardápio que se repete na rotina desse
tipo de vivente. A dor e o caos são os temperos do alimento diário...
Imaginem um animal
que antes era bem quisto, limpo, perfumado e que de repente do conforto
da casa é lançado na sarjeta hedionda da vida. Em lugar da água limpa a
lama. Em vez do perfume a peste que toma conta do corpo. O físico, antes
bem nutrido, torna-se flácido e horripilante. O cheiro cresce de forma
insuportável. Vive a se coçar e lançar na atmosfera fungos e outras
imundícies. Impossível olhar para animal assim e não se encher de asco.
Antes da sarjeta ele
tinha companhia e afagos. Passava de colo em colo. Era beijado e
cheirado. Agora não tem companhia e leva pedrada. Não sabe mais o que é
aconchego afetivo. Ninguém o beija (que nojo!) e o odor pútrido não pode
ser aspirado pelas narinas dos sadios...
O ser humano também tem seus dias de cão. Tem momentos especiais, aqueles típicos do cão sarnento.
O nosso personagem
humano, como se sabe, experimentou do conforto merecido e passou a
conviver com o lado obscuro de um segmento social que se considera
modelo. Tal qual canino sarnento, que agora vê o mundo por outro prisma,
o nosso personagem começou a enxergar o que existia debaixo do véu.
Antes ele, que era figura carimbada em encontros e “dançarás”, foi
remetido ao desterro. Sua casa, que vivia repleta de gente “do bem”,
viu-se deserta de corpos e de almas.
Interessante: a face
oculta dum setor corporativista só pode ser enxergada quando
confrontada com realidades que se diferem, situações que se divergem. Os
mesmos que antes gargalhavam passaram a exibir um sorriso amarelo, um
olhar de peixe morto. Algo sem vida e melancolicamente real. Agora sim a
realidade mostrava-se indubitável. E que realidade horrível! Horrível e
muito horrível, amarga e muito amarga.
O amargor remete a específicos momentos de cão sarnento...
Nosso personagem,
meses antes da queda, exercia função diretiva comandando chefes de
setores. Os mesmos que submetiam suas realizações diárias a um crivo
sério, mas leal. Não havia possibilidade de “puxada de tapete”, eles
sabiam que assim funcionava. Não havia trairagem. Podiam confiar no
jovem comandante.
Havia um desses
subalternos, o que mais se acercava para mostrar serviço, que denotava
ser muito íntimo, insurgia-se como o mais chegado. Chefiava um setor
emergente e em franco crescimento nos lucros. Aquele departamento era
uma espécie de menina dos olhos. Passara a funcionar num novo local,
novo mesmo, cheirando a tinta fresca...
Depois da queda do
chefe escafedeu-se! Nunca mais se mostrou. Não chorou, não acendeu vela.
Não apareceu! Nem mesmo para xingar ou cuspir. Nada!
Um dia andando nas
proximidades do largo treze, em Santo Amaro, bem atrás do Bradesco da
Adolfo Pinheiro, nosso personagem que ia na direção daquela agência o
avistou. Eis que ele vinha em sentido contrário. Ambos se viram!
Impossível que os olhares não se cruzassem...
Mas quem não muda de
calçada quando se defronta com um cão sarnento? Pois aquele antigo
subordinado mudou de lado na rua e fingiu não ver quem de lá vinha. E
mais: simulou estar perdido a olhar para a parede de uma loja, como se
lá houvesse algo para ser visto...
Nosso personagem
experimentou atitudes similares a essa por dias, semanas, meses e anos!
Os mesmos que no prato comeram, nele passaram a cuspir. Cuspir? Nem
mesmo isso. Quem cuspiria em algo que pertencesse a um cão sarnento? Não
se queima vela em velório de defunto ruim, não se bate em cachorro
morto e não se atenta para um fósforo riscado... Ao cão sarnento um
destino que a tudo isso supere! A ele o desprezo e a desonra!
Nesses dias de cão
sarnento aquele que no dia 11 de dezembro de 1979 entrou pela porta da
frente da instituição notou, tristemente, que foi jogado na sarjeta e
pela porta dos fundos...
Teve, porém, algo
novo: a visão além do alcance. Algo que não é peculiar num cão bem
tratado. A visão de cão sarnento lhe permitiu notar o que existia atrás
dos sorrisos, dos tapinhas nas costas, das supostas orações de fé e dos
discursos retóricos. Pôde enxergar o que só se observa em momentos
indescritíveis vividos por um cão sarnento: a hipocrisia reinante, que
está sempre bem vestida, penteada, perfumada e que se dirige
semanalmente aos centros de comunhão e de louvor...
Continua...
Parte - III
Naquele primeiro mês a situação fervia “que nem” óleo em temperatura
elevadíssima. Havia uma comoção sem fim. De uma maneira geral o que se
pensava era lógico: onde há fumaça há fogo. Para muitos a coisa era pior
do que parecia e para outros não era tudo assim. De qualquer modo não
existia convicção de que estava tudo certo. O que causava mal-estar era
simples: se estava tudo errado por que o cidadão tido como corrompido
continuava em atividade? E se estava certo por que o denunciante não foi
disciplinado eclesiasticamente pela apresentação de falso testemunho? O
desconforto era montanhesco!
Por aqueles dias apareceu na casa do “cão sarnento” um senhor idoso,
nascido no sul do Brasil, pastor aposentado. Segundo suas próprias
palavras ele costumava atuar como bombeiro em situações e “que tais”.
Depois de aposentado ele já havia exterminado incêndios gigantescos.
Estava ali para apagar mais um. Disse ao nosso personagem que a
iniciativa da visita partira de pessoas simpáticas à denúncia e que,
segundo ele, queriam a solução correta para a lide e a reintegração do
frustrado personagem ao trabalho, mesmo que em outra praça.
Ouviu a versão do lado de cá e assumiu o compromisso de retornar dois
dias depois com soluções que, segundo suas palavras, deveriam ser de
conformidade com a causa do denuncismo. Denuncismo, disse ele, que
garbosamente insurgira-se contra a falta de vergonha do famigerado
operador dos recursos, daquela instituição com mais de 70 anos de
existência. Disse, à despedida, que já conhecia a fama do degenerado que
antes de vir para São Paulo deixara suas digitais no departamento
anterior, em outra unidade da federação.
Dois dias depois, numa pontualidade britânica o bombeiro retornou.
Cabeça baixa, olhar abatido e com uma lista na mão. Tinha consigo os
dezessete nomes de funcionários que seriam demitidos caso não houvesse
um recuo do sarnento cão que instava em continuar latindo. Eram
dezessete ex-colegas. Como prova de força demitiram três e os catorze
seguiriam pelo mesmo rumo nos dias seguintes...
Havia uma “promessa”: caso houvesse um recuo os catorze não seriam
demitidos e os outros três reintegrados ou alocados para outros pontos.
Começaram a surgir os efeitos da sarna do cão: ele que estava sendo
corroído pela pestilência agora via os efeitos nefastos de seu estado
pútrido sendo estendidos para outros viventes do meio. Três já estavam
em estado terminal e catorze a caminho da UTI. O cão sarnento sentiu-se
terrivelmente abalado. As circunstâncias que estavam no fundo do abismo
começaram a notar o abismo se aprofundando em si mesmo...
Que loucura! O corporativismo implementado pelos carcarás sanguinolentos
funcionava como um torniquete! Sentiram, os abutres, que o cão, por
mais sarnento que ficasse, não haveria de recuar. Estava doente, mas
seguia destemido. A artilharia foi estrategicamente remanejada na
direção de terceiros. O efeito imaginado surtiu efeito. O cão sarnento
ficou descadeirado. Naquela noite teve dificuldades atrozes. Não dormiu,
não comeu, ficou quase entregue...
Os três demitidos, encontravam-se sorumbáticos, mas nada cobraram e até
se sentiram honrados. Dos catorze ameaçados três debandaram. Dos onze
restantes dois grupos se formaram. Aqueles que insistiram para que não
houvesse recuo, ainda que eles também fossem demitidos.
O problema emergiu com força quando outros pediram para que houvesse a
debandada. Eram pais de família com filhos ainda crianças e esposas em
fase de estudo naquela instituição. Seria um prejuízo indescritível! Uma
maldade imensurável...
Saibam, meus amigos, que cão sarnento, mesmo sendo muito corajoso, não
deixa de ter coração a bater no peito. Notou que deveria carregar,
sozinho, a pesada cruz. Deixou claro: abriria mão dessa luta momentânea,
mas jamais desistiria da batalha final. Nosso personagem fez um pedido,
protestando pela readmissão dos três afastados.
Observem: o remanejamento dos três demitidos foi o único fogo que aquele
pastor idoso, de cabelos grisalhos, vindo do sul do Brasil conseguiu
apagar.
As dezessete pessoas da lista do pastor grisalho têm histórias distintas
que poderão ser descritas. Nosso personagem de forma objetiva aponta o
que aconteceu com os três que debandaram de lado (mais detalhes, quem
sabe, adiante): um foi exonerado por manter, durante vários anos, uma
amante quase na própria casa. Outro, que era casado, por optar por
procedimentos homossexuais. O terceiro foi expulso de casa pela esposa
por envolvimento simultâneo com outras três mulheres casadas da
comunidade dos fiéis...
Parece exagero? Esperem até saber os desdobramentos com os demais e em
especial com aquele: o enviado especial das hostes espirituais da falta
de decoro.
Continua...
Parte - IV
E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo
daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés (Mateus 10:14).
Muitas pessoas perguntam ao nosso personagem como ele ainda conseguiu
freqüentar aquele meio. Sabe-se que lá a membresia, de um modo geral, é
bem intencionada. Como também é sabido que existe uma minoria ruidosa,
que pratica o mal, sob a capa da aparência do bem e que na realidade
final é quem dita as regras e estabelece o procedimento. Essa minoria
não funciona como difusora de opiniões, mas como formadora de pontos de
vista, agindo de forma ditatorial.
De fato foi sofrido, para o cão sarnento, continuar indo e vindo por
ali. Mas o contexto o obrigou a certas atitudes. Como já salientado a
maioria ali militante é de boa índole incluindo o corpo docente.
Considerando que tanto ele como a esposa cursaram faculdades lá, seria
natural que os filhos usufruíssem da educação ministrada, que independe,
na medida do possível, da influência dos carniceiros ou, como queiram,
abutres insaciáveis do pasto que não acaba.
A dificuldade do nosso personagem sempre foi a da freqüência às reuniões
tidas como “sacras sabáticas”. Ali, sim, os bons e os maus bebem lado a
lado. Cordeiros e lobos, pessoas dos bem e bandidos, gente pura e
fornicadores extraconjugais contumazes, crédulos e incrédulos, ateus e
criacionistas, teóricos da fé e praticantes sistemáticos dos bons
costumes. Nada que não exista em outros lugares. O problema é que ali
não é lugar para “disfarces sacrílegos”.
A propósito disso o nosso personagem já tem até uma nova série em
andamento que terá como título “Contos do Esconderijo”, que espelharão
de forma irrefutável algumas barbaridades desrespeitosas praticadas por
dirigentes e influentes dali. Em “Contos do Esconderijo” será possível
vislumbrar, por exemplo, historieta ligada a um influente líder, que a
despeito de manter a fonte cinqüentenária não abriu mão de uma acadêmica
e mais: depois de se esbaldar o dia inteiro, numa sexta-feira, esteve
na Santa Ceia entre os que partiram o pão. Afinal é comunidade apenas ou
um dos melhores esconderijos da terra?
Acontece em outros lugares? Sim, mas para o cão sarnento isso faz muito
mal, pois sempre isso tudo o remete aos idos de 1989, suas mazelas e
lágrimas, quando os partidários da indecência administrativa faziam de
forma similar.
A propósito do texto de ontem, alguns esclarecimentos:
(1) Quando o cão sarnento se pronunciou na tribuna eclesiástica deixou
claro que tinha buscado guarida na administração e que agora buscava
tutela eclesiástica. Sabe-se que uma disciplina ou exclusão promovida
pela membresia forçaria demissão dos envolvidos.
(2) Salientou que em caso de novo desinteresse em resolver a lide o
assunto sairia daquele contexto. A roupa seria lavada fora de casa. O
que de fato começou a acontecer. De sorte que o recuo exigido, do cão
sarnento, foi exatamente esse: parar já o que tinha sido iniciado,
permitindo manobras que impediriam a implosão do corporativismo.
(3) Outro ponto que precisa ser destacado: os atos lesivos estavam sendo
praticados por apenas uma pessoa, mas seu superior imediato, que fazia
“tráfico de influência” externo perante fornecedores ficou “emparedado”.
Não tinha idoneidade suficiente para agir. A velha história do rabo
preso!
(4) A instituição, de uma maneira geral ficou em situação precária.
Grande parte dos recursos que entravam era usada na própria instituição,
mas em finalidades diferentes daquelas que seriam obrigatórias desde a
origem.
(5) O cão sarnento, entre a espada e a parede, foi posto em “estado de
férias”. Nada recebeu de recursos financeiros trabalhistas, saldo de
salários, férias, nada! A ordem era forçá-lo ao desespero (voltaremos a
isso). Logrou êxito em ação judicial e somente em 2003 (muitos anos
depois) recebeu suas verbas rescisórias.
Como devem ter notado o texto de hoje tem como fito a tentativa de
clarear alguns pontos e impedir que os maus sejam beneficiados, ao mesmo
tempo em que os bons não sejam maculados.
O ponto positivíssimo nisso tudo foi o aumento significativo de visitas
de “usuários únicos” no blog, além do número crescente e constante das
visitas de usuários antigos. Lamentavelmente alguns comentários não
puderam ser liberados e entre eles os postados por anônimos e usuários
com identificação “laranja”. As observações postadas por pessoas
cadastradas e que mostrem “a cara” serão publicadas. As ponderações por
e-mail serão respondidas, desde que os remetentes se identifiquem de
forma séria e que utilizem correios eletrônicos oriundos de provedores
pagos.
Agradeço a todos que se solidarizam. Saibam que não estou praticando
autópsia em cadáver velho, mas tentando mostrar às pessoas que é
possível ser violentamente e injustamente massacrado e mesmo assim
continuar acreditando na decência. O que é mais importante: poder
(sempre) olhar para os familiares e para todas as pessoas diretamente
dentro dos olhos.
Para aqueles que estão pleiteando (saudosos ou frustrados) mensagens reflexivas uma notícia: inaugurei um novo blog:
CULTURA E RELIGIOSIDADE.
O objetivo naquele espaço democrático será o de ponderar acerca da
grande diferença que existe entre “religião” e “cultura religiosa”.
Serão textos voltados apenas para assuntos ligados aos dois temas que
intitulam o blog. O desenho da página por lá ainda é simples. Mais
adiante usarei um “template” melhor.
Continua...
Parte - V
O tema “Momentos de cão sarnento” chega ao quinto e último texto. Mais
adiante será retomado sob os títulos “Momentos de Ostracismo” e “Contos
do Esconderijo”. Por hora é só, mesmo porque o blog precisa seguir o seu
caminho principal. Essa página não tem caminho único, mas fixa-se no
plano precípuo do convite permanente à reflexão e de formas variadas.
Como devem ter percebido a vida pode pregar peças nas pessoas. Tudo é
muito dinâmico. Num momento alguém é a sensação positiva, no outro é
lançado às feras. Quem está em pé deve cuidar para não cair. No meio
tido como religioso, com ênfase em algum tipo de filosofia de vida, o
perigo é constante, mas nem sempre é visível. Tudo levaria a crer que
trabalhar num ambiente assim é um magnífico sonho profissional, mas
analisando os bastidores, nota-se que não é bem assim. Estrela
fulgurante hoje, estrela candente no dia seguinte.
Estamos em momentos eleitorais nos municípios brasileiros e lá, pelas
bandas, dos que se julgam os únicos remanescentes do verdadeiro povo de
Deus. Os bastidores têm funcionado 24 horas por dia e na calada da noite
planos são elaborados. Esse humilde blogueiro tem recebido de uns e de
outros algumas perguntas do tipo: “sabe de alguma coisa quente?” Os
bastidores da “fé” são podres como todos os demais. Não é defeito
exclusivo do nosso contexto. É típico do ser humano.
O que sobra, depois do incêndio, é a certeza de que a vida deve
continuar para os que sobreviveram. Existem pessoas que dependem da
parcela de ação de cada um. Ninguém é uma ilha e de uma forma ou de
outra influencia o meio. O fito principal deve ser “influenciar para o
bem”. Qual bem? Aquele que contempla a maioria merecedora e carente. O
bem anda de mãos dadas com a justiça social.
De 1989 para cá muita água correu debaixo da ponte. Reflexões vieram nas
noites de muitos. Quem, caso pudesse retornar no tempo, daria traços
diferentes a essa pintura dantesca? O que aconteceu não pode ser mudado,
mas há necessidade de ação com hombridade! Resquício mínimo de moral
deve existir. Pessoas devem admitir o erro, ainda que não possam mais
mudar o curso do ocorrido. Apostar na ação erosiva do tempo é
característica reinante no meio omisso.
Enquanto “a bola não rola” na direção necessária do “gol”, nosso
personagem segue seu caminho. Trata-se de uma pessoa repleta de erros e
de virtudes. Há que se ressaltar: entre os seus erros nunca esteve o
famigerado vício da omissão!
Nota: O famigerado ser, que foi o principal promotor de toda a problemática, foi demitido da Instituição (Hospital) na qual trabalhava. Motivo: um filho fora do casamento, descoberto em razão de uma ação jurídica de alimentos. O tempo, senhor da razão, julgou, muitos anos depois, os eventos ocorridos em 1989, trazendo à tona o que efetivamente aconteceu nos bastidores. Ainda hoje encontro pessoas, que quando passam por mim, abaixam a cabeça. Não mais para fugirem de um cão sarnento, mas pela vegonha do comportamento vil e covarde que tiveram naquela época. Pessoas que se julgavam cumpridoras dos deveres morais e éticos, mas que quando foram confrontadas com a realidade dura, curvaram-se diante de baal. Você acha que os omissos e coniventes da época se desculparam? Você ainda acredita em Papai Noel?
Enéias Teles Borges - Autor e Personagem principal da história.